Me tornar Mórmon

Assim como Néfi, também nasci de bons pais e, portanto, recebi alguma instrução (1Néfi 1:1) . Ou melhor, muitas instruções. Tornar-me mórmon era tudo que jamais imaginei até o ano de 2008.

Meus pais sempre foram cristãos católicos. Desde muito cedo, frequentávamos juntos as reuniões dominicais e outros eventos ligados à religião. O ensino religioso católico em meu lar, sempre foi forte e constante.

Em 2008, minha mãe faleceu vitima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) e sua morte repentina abalaram minhas convicções. Eu ansiava por saber onde estava minha mãe, o que estaria acontecendo com ela e incessantemente, perguntava-me se eu poderia vê-la outra vez.

Eu tinha apenas 12 anos naquela época, mas por estar tão enraizada na religião, era lá que eu procurava minhas respostas. Era com aqueles líderes que eu me aconselhava.

O tempo foi passando e as respostas que eu ouvia, não preenchiam minha alma, faltava alguma coisa. E de alguma forma, as coisas pareciam não estar em conformidade com o que eu lia nas Escrituras.

A partir dali minha fé fora se enfraquecendo. Apesar de ainda ir à igreja e participar de outras iniciativas religiosas, sentia-me vazia, sem esperança e consequentemente, sem respostas.

Comecei a estudar sobre religiões nos anos seguintes. Algo me dizia que eu poderia encontrar as respostas que tanto procurava, pois, há uma promessa que se temos falta de sabedoria podemos pedir a Deus e Ele nos concederá (Tiago 1:5). E foi o que continuei a fazer durante anos a fio.

Por um período, eu estudava sobre religiões, mas ainda frequentava a religião católica. Eu ensinava crianças naquela época. Participava das liturgias também e estava inserida em vários grupos de jovens.

Todavia, as coisas foram cada vez mais deixando de fazer sentido, não se encaixavam. Foi nesse estágio, que me senti em um poço profundo e cheguei a afirmar para mim mesma “Gott ist tot”(em português: Deus está morto)¹. Eu desacreditara em Deus. Perguntava-me o porquê de Ele ter me deixado sem mãe tão cedo e se Ele tinha resposta para todas as coisas por que Ele não me mostrava? Por que Ele não me dizia onde estava minha mãe?

Deus continuou morto dentro de mim por um período um tanto extenso. Tornei-me amarga naquele tempo, dura, insensível…

Vinte e oito de agosto de 2012 foi a data que Ele escolheu para começar a responder os questionamentos de minh’alma aflita. Esperei por visitações celestiais, visões arrebatadoras, mas Ele usou de dois seres humanos simples, a que chamei na época de missionários mórmons.  Foi naquela tarde ensolarada, que dois rapazes, vestidos de camisa branca, gravata, calça social chamaram em minha casa, pediram-me água e compartilharam uma mensagem comigo e meu pai.

Enquanto eles estavam ali, sentados em nossa sala, pude sentir uma tranquilidade que há muito não sentia. Estava leve, calma, totalmente calma.

Após sua mensagem, que foi marcada por oposição, haja vista as opiniões religiosas do meu pai, eles saíram. Para mim, ficara um convite para estar na igreja o próximo domingo e um livreto com seus nomes e telefone.

Não sei bem expressar o que senti naqueles momentos posteriores, sai sem muito entender, precisava reencontrá-los. E foi o que fiz. Sai à procura daqueles dois rapazes. E os encontrei.

Falamo-nos brevemente em uma rua perto de minha casa, combinamos de nos ver na igreja no domingo próximo.

A noite passada em claro, pensando no que ouvira dos missionários: restauração da verdade perdida! Parecia fazer sentido…

Durante dois anos, continuei pesquisando a igreja e frequentando as reuniões tanto quanto a ocasião me permitisse. Meu pai e irmã não sabiam muito sobre o meu envolvimento com a igreja.

Após um período, aqueles sentimentos e conhecimento não cabiam mais em mim e resolvi contar a eles, o que estava acontecendo. Em um primeiro momento, falei com minha irmã e para minha surpresa, encontrei apoio e suas palavras: Eu já sabia!

Não sei como ela sabia, mas ela sabia. Talvez algo exterior tivesse mudado em mim, não sei.

Com meu pai, a história foi e ainda é delicada. Como eu imaginei, não encontrei aceitação. Pelo contrário, ouve e ainda há críticas grandes.

Porque eu decidi me tornar mórmon

Porque eu decidi me tornar mórmon, mudaram muitas coisas em minha vida, a começar pela minha família. Agora, não vamos mais a igreja juntos e com frequência encontramos divergências quanto às opiniões.

Em 22 de junho de 2014, dois anos após a visita dos primeiros missionários a minha casa. Em um domingo frio, tempo fechado eu fui batizada. Na foto, da lembrança desse dia, não há uma família numerosa, ou muitos amigos. Meu pai, não foi ao meu batismo. Minha melhor amiga, foi proibida de falar comigo, por causa de minha nova religião… Mas com amor, ao meu lado, estão minha irmã e meus sobrinhos.

tornar mórmon

A decisão de me tornar mórmon mudou minha vida. (imagem: cortesia Inê Leandro)

Quando eu decidi me tornar mórmon, muitas coisas mudaram. Muitos amigos se foram. Bom, hoje acho que não eram amigos. Uma amizade de anos fora desfeita por intolerância religiosa. Meu próprio pai não estivera ali  comigo. Mas quando eu decidi me tornar mórmon, encontrei a verdadeira alegria.

Ao tomar a  decisão de me  tornar mórmon, foi como se finalmente eu tivesse entendido o propósito de estar aqui nessa Terra e passar por tantas dificuldades, desde a separação com minha mãe, até os amigos que perdi.

Hoje, meu pai vai a Igreja comigo em ocasiões especiais como Natal e Páscoa. Ele já pode ouvir um de meus discursos. Nesse ano, levei-o aos jardins do Templo de São Paulo. Não digo que as diferenças acabaram, na verdade, elas continuam ali. Contudo, convivemos com elas.

Minha irmã e meus sobrinhos conhecem sempre os missionários que servem no Ramo de minha cidade. Há sempre respeito e amizade entre eles.

Apesar de não frequentar mais a igreja católica, nutro tamanho carinho e respeito por todos os líderes que tentaram me auxiliar. Tenho muitos colegas católicos e nossa opinião religiosa não é um problema, eu os admiro e respeito!

Atualmente, caminho para três anos como membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Sei que ainda há muito para viver, muito para aprender. Compreendo que provações ainda maiores estão por vir.

Às vezes temos muitas perguntas, eu tinha várias. Muitas delas, já foram respondidas. Quando decidi me tornar mórmon, muitas coisas mudaram, em todos os âmbitos da minha vida. O caminho que percorremos é estreito e apertado (Mateus 7:14), e muitas vezes solitário, mas sei que só ele pode nos conduzir de volta ao nosso lar Celestial.

Tornar-me mórmon foi a melhor decisão da minha vida, pois com ela eu pude entender que as famílias poderão ser eternas!


Referências

  1. Deus está morto (no original alemão “Gott ist tot”) é uma frase muito citada do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.
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