The New York Times, um dos canais de notícias mais importante do mundo teve que responder a mais de 115 mil pessoas que assinaram uma petição feita em menos de 24 horas pedindo para que o mesmo se retratasse pelo que foi considerado um obituário ofensivo e parcial sobre Presidente Thomas S. Monson.

Nathan Cunningham, um membro de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias nos Estados Unidos, publicou a petição em change.org, que foi compartilhada por diversos membros nas mídias sociais.

Não estamos contra aqueles que critiquem o Presidente Thomas S. Monson. Nesses tempos modernos, a internet é um lugar onde há espaço para todas as opiniões. Entretanto, o respeito e neutralidade devem ser esperados de um canal de notícias tão importante como o The New York Times.

O jornal foi parcial e negativo na maior parte do obituário do falecido profeta. A nota de falecimento se concentrou mais nas controvérsias do que nas obras de vida do Presidente Monson.

Veja abaixo a resposta do Jornal e Editor à petição publicada recentemente no The New York Times:

Artigo do The New York Times

Thomas S. Monson, que morreu na semana passada, serviu como profeta e líder de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias por quase uma década.

Os leitores reagiram fortemente à nossa nota de falecimento sobre Thomas S. Monson, que serviu como profeta e chefe do Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos dias por quase uma década. Em centenas de mensagens para o The New York Times e dezenas de comentários sobre a nota de falecimento, os leitores, inclusive muitos mórmons, disseram que ela foi estreitamente focada em controvérsias políticas da igreja mórmon e negligenciou as contribuições do Sr. Monson à comunidade.

Aqui estão algumas observações dos leitores, que foram levemente editadas para comprimento e clareza.

“Como um Mórmon gay, afirmo que, embora a política do Presidente Monson fosse controversa para alguns, ela não reflete seus ensinamentos de vida, que eram centralizados no serviço e no amor abnegado. O Times focou apenas em política e não nos ensinamentos que o definem como distinto.” — Zachary, em uma mensagem para a Central do Leitor

“Hugo Chávez? Hugh Hefner? Eles tiveram notas de falecimento glamorosas comparadas com a deste homem, que dedicou a vida para servir e ajudar os outros.” — Jon Wilson, em uma carta para o editor

“As decisões que ele tomou (de não ordenar mulheres ao sacerdócio ou aceitar o casamento gay) foram incluídas, sem qualquer explicação justa de suas crenças/das crenças mórmons sobre os assuntos e sem qualquer contexto. Eu aceitaria como normal ver que as crenças ou padrões de igreja mórmons sejam vistos como polêmicos e mencionados em uma nota de falecimento, mas isso foi feito sem qualquer contexto.” — Chantelle Wood, em um e-mail para a redação

Resposta do Editor

Abordamos as perguntas nos comentários dos leitores, e William McDonald, nosso editor de obituários, respondeu a elas.

Muitos leitores têm apontado que a maior parte da nota de falecimento foca em questões controversas e politicamente divisionistas da Igreja mórmon. Eles dizem que a vida do Sr. Monson incluiu um forte trabalho humanitário e comunitário como o líder de uma enorme religião que fazia o mesmo e gostariam que a nota de falecimento tivesse abordado mais isso. Como você responde a esses leitores?

Acho que a nota de falecimento foi um relato fiel das questões mais proeminentes que o Sr. Monson encontrou e tratou publicamente durante seu tempo de liderança. Alguns destes assuntos  o papel das mulheres na igreja, a política da igreja em relação à homossexualidade e o casamento homossexual e outras  foram amplamente divulgadas e discutidas, e é nossa obrigação como jornalistas, seja em a nota de falecimento, ou em outro lugar, divulgar totalmente estas questões de ambos os lados. Acho que fizemos isso, retratando tanto as posições do Sr. Monson como líder da igreja como a daqueles fiéis e os outros que questionaram as políticas da Igreja.

Também acho que demos o crédito devido às realizações do Sr. Monson: sua abertura para novos trabalhos pelos estudiosos da igreja, “permitindo-lhes”, como nós dissemos, “notável acesso aos registros da Igreja”; o aumento da força missionária global da Igreja e o dobro do número de mulheres como missionárias; e seu envolvimento com as causas humanitárias, muitas vezes em colaboração com judeus, muçulmanos e outros grupos cristãos.

Mas reconheço também, perante aqueles que consideraram a nota de falecimento carente dessas informações, que nós não fornecemos uma visão mais abrangente do Sr. Monson talvez seu lado mais humano. Eu vou admitir que o que nós retratamos foi o homem público, não o privado ou aquele conhecido por seus mais fervorosos admiradores.

Observando nossa publicação, poderíamos ter prestado mais atenção à alta consideração por ele dentro da igreja. Acho que pela sua posição na igreja, tudo isso estava implícito. Mas talvez deveríamos ter deixado mais claro.

Ainda avaliando nossa publicação, eu acho que a nota de falecimento deixa claro que ele era um homem de muita fé e muitas convicções, que os defendeu mesmo diante de detratores, enquanto encontrava maneiras de avançar com a igreja.

Em geral, ao publicar uma nota de falecimento, como você decide quais pontos da vida de uma pessoa vai destacar?

A regra geral é que se alguém “vira notícia” de alguma maneira durante sua vida, então sua morte é provavelmente interessante, também. Portanto, temos de olhar para os pontos que definiram um indivíduo na mente do público tudo o que tornou essa pessoa conhecida para o público mais amplo: um avanço científico, obtenção de poder político, um Oscar que ela ganhou ou um ponto importante feito em uma competição esportiva mundial.

Também gostaria de acrescentar que quando se lida com pessoas em posições de liderança— como o chefe de um país, de uma corporação ou de uma igreja  as controvérsias são intrínsecas. E nas controvérsias em grande parte, os pontos de atrito de algum tipo, são o que fazem as notícias. Um dia calmo na Casa Branca não é notícia; um ponto controverso entre o presidente com e a maioria da liderança do Senado é. Então uma nota de falecimento — que, em muitos aspectos reconta a notícias do passado  relembramos controvérsias, como deveria.

Não paramos aí, claro; também tentamos falar da vida, desde o nascimento  em parte para sugerir o que pode ter levado uma pessoa a ter sucesso, alcançá-lo, tornar-se famoso (ou, no caso de infame, perturbador da ordem social).

E tentamos dar algumas informações sobre o homem ou a mulher  algo sobre a personalidade e o impacto pessoal. Mas tomamos o cuidado para não exercer o papel de elogiadores e simplesmente elogiar alguém. Não prestamos homenagens. Nós nos esforçamos mostrar o positivo e o negativo na biografia, de modo abreviado.

Muitos leitores mórmons não acharam que a nota de falecimento do Sr. Monson reflete os sentimentos positivos que a maioria da comunidade mórmon tinha por ele. Ao escrever um a nota de falecimento de um líder religioso, existe a obrigação de prestar algum tipo de homenagem?

Nosso trabalho não é o de prestar homenagens.  Somos jornalistas, antes de mais nada. Acho ao retratar a vida de um líder religioso, é quase desnecessário mencionar que ele tinha o respeito e a admiração de todos aqueles que o colocaram em posições de liderança. Mas nós bem podemos citar alguém explicando a sobre o respeito ou a admiração que as pessoas têm por ela, se isso for algo substancial para a compreensão dos leitores sobre um indivíduo. Em outras palavras, não vamos citar alguém simplesmente dizendo: “O Sr. Silva foi uma pessoa maravilhosa”.  Mas citaremos alguém dizendo o porquê de ele ter sido.

Na nota de falecimento do Sr. Monson, por exemplo, entramos em contato com um estudioso da igreja, Richard Lyman Bushman, para perguntar sobre a redução na idade a partir da qual as mulheres podiam ser elegíveis para o trabalho missionário. Ele escreveu: “Isso mudou completamente a visão sobre o que as mulheres fariam: que elas seriam como os homens”, disse o Professor Bushman. “Houve uma grande onda de prontidão. Isso mudou a mentalidade delas”.

O Times tem um público grande, abrangente e variado. Ao escrever notas de falecimento como esta, de uma pessoa com quem nosso público em geral pode não estar familiarizada, mas que é bem conhecida por um determinado grupo de pessoas, como a equipe que cuida das notas de falecimento faz para pensar nos diferentes públicos?

Realmente pensamos em públicos específicos. Entendemos que esses públicos fiscalizarão nosso trabalho mais de perto. Se cometermos um erro factual em um a nota de falecimento sobre um físico, por exemplo, nós ouviremos comentários de seus colegas no mesmo campo (e em seguida, corrigiremos o erro).

Também entendemos que esses grupos serão mais sensíveis do que a maioria sobre como retratamos alguém conhecido para eles. Alguns podem ter algum tipo de demanda, querendo retratemos alguém como eles querem essa pessoa seja lembrada, talvez em uma perspectiva que melhor serve seus interesses.

Não podemos fazer isso, é claro. Temos que deixar os fatos da vida formarem a imagem. Na minha experiência, quando fazemos isso, com justiça e precisão, existem poucas queixas.

Com as notas de falecimento de figuras religiosas importantes, vocês fazem perguntas a pessoas com profundo conhecimento da religião para revisar as informações antes de publicá-las? Você tem noção de quantos membros ativos da comunidade mórmon foram entrevistados para esta nota de falecimento?

Ao escrever a nota de falecimento de Monson, entramos em contato com representantes e estudiosos da igreja e com o correspondente chefe do Times para assuntos religiosos.

Por que vocês se referiram ao Presidente Monson como “Sr.” na nota de falecimento, e não pelo seu título na igreja mórmon, Presidente? Alguns leitores ficaram ofendidos com isto.

Não foi nossa intenção ser desrespeitosos.  Talvez nos referimos a ele como “Presidente Monson” pelo menos uma vez, de acordo com nosso manual da redação e estilo, mas o manual também diz que, “Sr. e Dr. também são apropriados”.

Em qualquer caso, “Sr.” é um título honorífico comum em nossas páginas para ministros (somos obrigados a dizer “o Sr. Jones”, na segunda referência, não “Reverendo Jones”) e até mesmo os presidentes dos Estados Unidos (você encontrará muitos “Sr. Trump” em nossas páginas).

Você acha que a resposta dada pelos editores NYT é suficiente? Deixe seu comentário abaixo.

Compilado por Lara Takenaga e traduzido por Luciana Fiallo Alves

Fonte: NYTimes.com

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